O Banco Central do Brasil divulgou em 23 de fevereiro os dados relativos às taxas de operação de crédito do mês de janeiro. As taxas de juros da maioria das modalidades de empréstimos que acompanhamos aqui subiram na comparação com dezembro de 2016, mesmo com as recentes reduções da taxa Selic. Com isto, a taxa de juros do rotativo do cartão de crédito bateu um novo recorde, chegando a 486,75% ao ano (15,89% ao mês).

Com esta nova alta do rotativo do cartão de crédito, quem deixou de pagar R$ 10.000 da fatura para serem pagos apenas no mês seguinte, acabará arcando com R$ 1.588,78, só de juros! Este é o principal motivo do governo ter obrigado os bancos a oferecerem outro tipo de crédito com taxas mais baixas após 30 dias de utilização do crédito rotativo.

Como veremos a seguir, há outras formas de empréstimos com taxas de juros menos extorsivas. Por exemplo, a taxa média de juros do crédito pessoal não-consignado (sem desconto em folha) ficou em 140,89% ao ano (ou 7,60% ao mês), o que representa uma alta em relação a dezembro, quando a taxa estava em 139,79% (7,56% ao mês). Nesta modalidade, quem deve R$ 10.000, acabará pagando R$ 760,15 de juros em um mês, ainda um valor bastante alto, mas bem menor do que os do rotativo do cartão e do cheque especial.

Na tabela abaixo, mostramos as taxas de juros de algumas modalidades de empréstimos e financiamentos no mês de janeiro de 2017 e fazemos uma comparação com o mesmo mês de 2016. Nas 3 últimas colunas, mostramos o quanto se paga de juros em um mês para uma dívida de R$ 10.000 nestes mesmos meses, e também a diferença de juros entre eles. No caso do cheque especial, por exemplo, o devedor está pagando R$ 82,20 a mais de juros em jan/17 na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

 

Taxa média de juros jan 17 x jan 16

Taxa média de juros jan 17 x jan 16

 

Nesta próxima tabela, comparamos as taxas de juros entre os meses de janeiro de 2017 e dezembro de 2016. Nela, pode-se ver que o maior impacto veio do cartão de crédito parcelado. Nesta modalidade, o aumento da taxa de juros gerou um impacto adicional de R$ 28,58 para uma dívida de R$ 10 mil. Já o cheque especial foi a única modalidade a ter retração no custo de juros, pagando-se na média R$ 0,72 a menos de um mês para o outro para uma dívida de R$ 10 mil.

 

Taxa média de juros jan 17 x dez 16

Taxa média de juros jan 17 x dez 16

 

Cheque especial

A taxa de juros do cheque especial continua em um patamar bastante alto, apesar da leve queda na comparação com dezembro. Depois de bater o recorde histórico em novembro, 330,64% ao ano ou 12,94% ao mês, a taxa caiu um pouco nestes 2 meses para 328,30% a.a. ou 12,89% ao mês. Para se ter uma ideia do quanto esta taxa subiu nos últimos meses, há pouco mais de 3 anos (mai/2013), a taxa era de “apenas” 136,47% ao ano, menos da metade da taxa atual.

Quanto ao spread do cheque especial em relação à taxa Selic média de cada mês, janeiro passou a registrar o recorde histórico, chegando a 278,34% ao ano, uma taxa bastante acima do spread apurado no início do Plano Real, que ficava em torno de 150% a.a. Além disso, representa um aumento de mais de 150 pontos percentuais em 3 anos. Em janeiro de 2013, o spread era de “apenas” 123,97%.

 

Taxa média de juros jan 17 – Cheque especial

Taxa média de juros jan 17 – Cheque especial

 

Rotativo do cartão de crédito

Muito pior do que dever no cheque especial é deixar de pagar ou pagar parcialmente a fatura do cartão de crédito. Em janeiro, a taxa do rotativo do cartão de crédito estava em 486,75%, apresentando uma nova alta histórica.

Quanto ao spread em relação à taxa Selic média, este também apresentou recorde histórico: 418,30%, enquanto dezembro havia registrado 414,29%. No início da série histórica (mar/11), o spread era de “apenas” 233,57%.

Vale o alerta que, sob estas condições, se não tiver como pagar o valor integral da fatura do cartão, sempre vale a pena tomar dinheiro emprestado para quitá-la completamente e, obviamente, até a data do vencimento. Os juros pagos serão certamente menores para o mesmo prazo de empréstimo. De certa forma, as instituições financeiras acabam cobrando muitíssimo caro por uma comodidade oferecida aos usuários de cartão de crédito e, estes, por ignorância, por comodidade ou por pura preguiça para pesquisar por outras alternativas de empréstimo, acabam caindo nesta “armadilha”.

 

Taxa média de juros jan 17 – Rotativo cartão de crédito

Taxa média de juros jan 17 – Rotativo cartão de crédito

 

Crédito pessoal não-consignado

A taxa média de juros do crédito pessoal não-consignado também registrou um novo recorde histórico em janeiro: 140,89% ao ano, vindo de uma tendência de alta há bastante tempo. Em relação ao spread sobre a taxa Selic média, também registrou o recorde da série histórica com 112,79% ao ano. Na comparação com junho de 2012 (spread de 53,53%), nível mais baixo da série histórica, este spread já subiu quase 60 pontos percentuais.

Ainda que estas taxas se encontrem em patamar recorde, elas são muito mais baixas do que aquelas cobradas no cheque especial e no rotativo de cartão. Com isto, este tipo de empréstimo passa a ser interessante para aqueles que estão bastante endividados e não conseguem obter dinheiro em modalidades mais baratas, mas menos acessíveis como o crédito consignado. Vale lembrar que, como as taxas de juros variam bastante de um banco para outro, é importante pesquisar as taxas oferecidas para que se possa encontrar a menor possível.

 

Taxa média de juros jan 17 – Crédito pessoal não-consignado

Taxa média de juros jan 17 – Crédito pessoal não-consignado

 

Parcelamento do cartão de crédito

Esta é uma modalidade de empréstimo em que o cliente do cartão de crédito tem a possibilidade de pagar a fatura do cartão de forma parcelada. A vantagem aqui é que as taxas são bem mais baixas do que as do rotativo, sendo uma alternativa mais barata do que pagar a fatura de forma parcial. Trata-se também de uma comodidade, pois o cliente só precisa pagar o valor exato da primeira parcela para contratar este empréstimo e as demais parcelas são normalmente cobradas nas próximas faturas do próprio cartão. Por outro lado, é possível que o cliente consiga obter taxas mais baixas no crédito pessoal, principalmente se tiver acesso ao consignado.

No caso do parcelamento de cartão, as taxas de juros vêm subindo fortemente desde o início de 2015, com leves quedas em ou outro mês, embora não tão rapidamente quanto as do rotativo. Em janeiro, a taxa registrou novo recorde histórico: 161,92% a.a. Já o spread, passou de 123,25% a.a. em dezembro para 131,37% a.a. em janeiro.

 

Taxa média de juros jan 17 – Parcelamento cartão de crédito

Taxa média de juros jan 17 – Parcelamento cartão de crédito

 

Financiamento de veículos

Esta é uma modalidade de crédito diferente das anteriores, pois envolve uma garantia, que é o próprio veículo financiado. E, pelo fato de haver uma garantia envolvida, as taxas de juros neste tipo de empréstimo tendem a ser bem mais baixas.

No gráfico abaixo, mostramos a série completa (que se inicia em junho de 2000) disponibilizada pelo Banco Central. A taxa de juros média do financiamento de veículos, que chegou a ser de 55,53% ao ano em dez/2002 (recorde histórico), baixou para o mínimo histórico de 19,47% em jun/13 e, em janeiro deste ano, passou para 26,18% a.a., um pouco acima da taxa de 25,70% a.a. apurada em dezembro. Apesar da taxa ter subido pouco mais de 6 pontos percentuais entre jun/13 e jan/17, vale observar que o spread não apresentou grandes variações (como as observadas nas demais modalidades), mantendo-se entre 10 a 12% ao ano nestes últimos meses.

Uma explicação para este fenômeno é que todo o processo para busca e apreensão do veículo em caso de inadimplemento (quando o devedor deixa de pagar o financiamento) tornou-se mais ágil e, de certa forma, menos custoso às instituições financeiras. Com isto, este custo menor reflete-se também no spread cobrado. Outra explicação pode estar relacionada ao aumento das exigências e a um maior rigor na análise da concessão de crédito, de modo que financiamentos com maior risco de inadimplência (e, portanto, com taxas de juros mais altas) deixaram de ser concedidas.

 

Taxa média de juros jan 17 – Financiamento de veículos

Taxa média de juros jan 17 – Financiamento de veículos

 

Crédito pessoal consignado

De certa forma, esta também é uma modalidade de crédito com garantia, pois o desconto da parcela é feito diretamente da folha de pagamento, não chegando nem a entrar na conta bancária do devedor. Os dados do Banco Central são abertos em 3 tipos de crédito consignado, a saber:
– Crédito pessoal consignado para trabalhadores do setor privado
– Crédito pessoal consignado para trabalhadores do setor público
– Crédito pessoal consignado para aposentados e pensionistas do INSS

Como podemos ver nos próximos três gráficos, as taxas do crédito voltado a servidores públicos e pensionistas e aposentados do INSS são mais baixas do que as do crédito voltado aos trabalhadores do setor privado. Novamente, a explicação está relacionada ao risco apresentado por cada tipo de cliente. O trabalhador da iniciativa privada tem a possibilidade de ser demitido, ao contrário do servidor público, de forma que há uma probabilidade maior de se tornar inadimplente, uma vez que ao ser demitido, o desconto em folha não mais ocorrerá. Apesar da empresa poder descontar 35% do valor da rescisão para quitar ou amortizar a dívida e de estar prevista a negociação de uma nova taxa de juros, o risco de inadimplência é maior e isto é refletido em uma taxa de juros mais alta.

 

Taxa média de juros jan 17 – Crédito consignado setor privado

Taxa média de juros jan 17 – Crédito consignado setor privado

 

No caso do crédito consignado para os trabalhadores do setor privado (gráfico acima), a taxa de juros passou de 42,70% a.a. em dezembro para 43,73% a.a. em janeiro. Analisando o spread em relação à taxa Selic média, este passou de 25,55% a.a. para 26,96% a.a., novo recorde histórico.

Quanto ao consignado para servidores públicos, a taxa passou de 27,53% a.a. em dezembro para 27,60% a.a. em janeiro, uma alta quase imperceptível, mas se aproximando mais do recorde histórico de 27,81% de abril de 2011. Já o spread, passou de 12,20% a.a. para 12,71% a.a. no mesmo período, uma vez que a taxa Selic média caiu. Ainda assim, o spread encontra-se pouco mais de 2 pontos percentuais abaixo do recorde de março de 2012 (15,03%).

No caso do consignado para pensionistas e aposentados do INSS, a taxa teve leve alta de 30,30% em dezembro para 30,71% ao ano em janeiro, ainda abaixo da máxima histórica de 32,07% de mai/11. Quanto ao spread, este passou de 14,64% para 15,46% ao ano, também abaixo do recorde histórico de 19,48%, apurado em mar/12.

 

Taxa média de juros jan 17 – Crédito consignado setor público

Taxa média de juros jan 17 – Crédito consignado setor público

 

Taxa média de juros jan 17 – Crédito consignado INSS

Taxa média de juros jan 17 – Crédito consignado INSS

 

Dicas

Com os expressivos aumentos nas taxas de juros do cheque especial e do rotativo do cartão de crédito nos últimos meses, principalmente, ficou absolutamente inviável contrair dívidas nestas modalidades. Para quem está devendo dinheiro nestes tipos de empréstimos, é preciso sair o quanto antes deles, seja vendendo um bem, seja tomando dinheiro emprestado a uma taxa de juros mais baixa. Para quem tem acesso ao crédito consignado, esta é uma das modalidades de crédito com taxas de juros razoavelmente baixas. Outra possibilidade, para quem tem um carro (já quitado) e não pode abrir mão de possuir um, é vendê-lo para poder pagar ao menos parte das dívidas e financiar a compra de outro. Obviamente, a ideia aqui é, na medida do possível, pegar um carro mais barato do que o anterior, afinal, estamos falando de uma pessoa que já está com o orçamento apertado.

Para aqueles que ainda não conseguem fazer um bom planejamento financeiro, vale a pena ler o seguinte texto:

- Dicas para não entrar no cheque especial usando o Minhas Economias

Ainda que você feche as suas contas no vermelho ao final do mês, ao menos você terá uma boa ideia do quanto precisa para pagar as suas contas e poder pegar dinheiro emprestado a uma taxa de juros menor. E, para sair das dívidas, seguem algumas dicas no link abaixo:

- Como sair das dívidas

 
 

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