Muitos investidores principiantes, às vezes por falta de referência, tomam decisões de investimento sem saber o que considerar rentabilidade adequada, ou mínima a ser exigida. Alguns neste cenário acreditam que toda aplicação que retorne mais do que foi aplicado já basta como forma de investimento, ou então comparam com a poupança e partem do princípio de que qualquer aplicação que ganha da poupança é uma boa aplicação.

Ainda nesta linha, por falta de referência, é comum vermos perguntas como “Investir em imóvel é uma boa ideia?” ou “Essa aplicação rende mais que a poupança?”. Então, vamos conversar sobre alguns dados que todo investidor tem de ter em mente antes de escolher qualquer aplicação e, de quebra, explicar alguns dos principais conceitos da nossa economia.

Todo analista de mercado tem como sua principal regra o que chamamos de “relação risco x retorno”. O conceito é simples, ao aumentar o risco de uma aplicação, é necessário que o retorno aumente, no mínimo, em proporção equivalente. Se duas aplicações oferecem o mesmo retorno, escolhemos a de menor risco. Se uma aplicação oferece maior risco, ela PRECISA oferecer maior retorno para valer a pena ou então será completamente desconsiderada pelos analistas.

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Assim, antes de começar qualquer tipo de comparativo, o que fazemos é verificar qual é a aplicação mais segura disponível, que será então nossa referência de rentabilidade mínima. E essa aplicação é a poupança, certo?

ERRADO!

A aplicação mais segura do país para pessoas físicas é o tesouro direto (e o tesouro nacional para pessoas jurídicas, que são essencialmente a mesma coisa), especificamente tesouro SELIC (LFT). Se você possui uma aplicação no tesouro, independente do valor, está garantido pela união. E ao contrário do que alguns alarmistas acreditam, a crise atual, o grau de investimento e o caos político não afetam em NADA a capacidade de pagamento do tesouro.

Além de muitos desses fatores estarem ligados somente a divida externa do país, e não à interna, o tesouro direto representa menos de 0,6% do total da dívida pública. Isso significa que mesmo que houvesse piora significativa da capacidade de pagamento do governo (algo ainda longe de ocorrer), o tesouro direto ia ser a última parte a ser afetada, principalmente porque em caso de crise uma das maiores preocupações do governo é manter as famílias com acesso aos seus recursos.

Além disso, o tesouro SELIC tem como pagamento a taxa SELIC, também chamada por muitos simplesmente de taxa de juros.

Atualmente a SELIC está em 14,25% a.a.. Isso significa que qualquer outro investimento, que invariavelmente oferecerá maior risco que o tesouro, precisa oferecer retorno ACIMA de 14,25% ao ano bruto para poder sequer ser considerado.

Sim, sequer ser considerado.

Esta é a razão pela qual a maioria dos analistas não pensa em poupança ou títulos de capitalização como sendo investimentos, pois ambas as aplicações oferecem retornos inferiores a SELIC e com maior risco. Cabe lembrar que no caso da poupança, o rendimento de 0,5% ao mês (aproximadamente 6,17% a.a.) diminui caso a SELIC fique abaixo de 8,75%, para 70% dessa taxa anual. Isso significa que não importa o quão baixo a taxa de juros fique, o tesouro SEMPRE vai vencer a poupança (mesmo considerando a incidência de imposto de renda).

A partir deste conceito, fica fácil responder muitas perguntas recorrentes sobre investimentos. Por exemplo, se é interessante direcionar seus recursos para compra de um imóvel para aluguel. A conta é simples. O custo de compra do imóvel total irá lhe oferecer um retorno anual de aluguel mais valorização do imóvel maior que a taxa de juros? Se a resposta for não, é um momento ruim para fazer este tipo de investimento.

Este conceito aplica-se a qualquer outra aplicação. Ao investir em ações, por exemplo, analistas avaliam quanto de exposição em risco terão de fazer para poder tentar superar a SELIC. Com a SELIC alta, fica sendo necessário maior risco para superá-la, o que faz com que deixe de ser interessante para perfis moderados. Empresas buscam sobre o valor de investimento no negócio retorno maior que a SELIC, pois gerir uma empresa sempre representa risco maior que investir em LFT, e assim por diante.

Por este motivo que é comum ver nos jornais especializados que quando a taxa de juros está elevada existe um freio no mercado, pois faz com que muitos investimentos deixem de ser interessantes, e ao invés disso o dinheiro de muitos players passa a ser alocado no tesouro ou em outras opções conservadoras que ofereçam rentabilidade maior que esta aplicação.

E você? Já parou para ver se sua carteira está acima ou abaixo do tesouro, e em que patamar de risco? Já conhece seu perfil de investidor? Se puder responder essas perguntas, já terá feito o passo mais importante na direção da sua independência financeira.

Sobre o autor:

Jansen Costa Silva, CFP® (jansen@fatorialinvest.com.br) é Planejador Financeiro, Agente Autônomo de Investimentos e colabora com o MinhasEconomias.