Uma das perguntas que mais frequentemente me fazem sobre mesada diz respeito à seguinte dúvida: deve-se ou não associar o ganho de mesada à execução de tarefas em casa?

Como dar mesada - Pt1

Vamos tomar, então, esta dúvida recorrente com ponto de partida.

Em primeiro lugar, convém esmiuçar o que está por detrás desta pergunta e isso é bastante fácil. Boa parte dos pais teme que, dando mesada sem exigir o cumprimento das tais tarefas, os filhos acabem por absorver a idéia de que, na vida, não é preciso esforço para ganhar-se dinheiro. Esta preocupação, embora compreensível, espelha a miopia que distorce o assunto mesada.

Do início: é inegável que, nos últimos anos, a moda de dar-se mesada aos filhos pegou. E, pena, pegou muito mal. Funcionando muitas vezes, e de modo especial na classe média, como modismo inconseqüente e fútil atropela, distraído, todos os “para quê, por quê, quando, quanto e como” da intenção da mesada. Disso tudo a “moda mesada” resultou, no melhor dos casos, em prática inócua à educação financeira dos filhos e, no extremo oposto, num desastre completo, com repercussões em diversas áreas do desenvolvimento infantil.

É um fato que estamos acostumados no Brasil, por incompreensão do capitalismo, a lidar com assuntos relacionados a dinheiro de modo displicente, irresponsável e preconceituoso. E se há alguma coisa que serve para desnudar preconceitos é exagerar, ao ridículo, seus princípios.

Forcemos, pois, uma caricatura do preconceito em relação ao dinheiro. Todos os pais sabem que, mesmo antes que a criança adquira destreza motora suficiente para escovar os dentes sozinha, os dentistas recomendam que se dê a ela escova e pasta de dentes para que vá treinando o hábito da higiene bucal adequada. A ninguém, em sã consciência, ocorre preocupar-se por presentear a criança com essa finalidade. Ninguém se ocupa em preocupar-se se, agindo deste modo, estará dando ao filho a impressão de que, na vida, não é preciso esforço para conquistar-se coisa alguma. Deve ser por isso que não se ouve falar em crianças que, exclusivamente para aprenderam a dar valor à escova de dentes, foram estimuladas a compensarem o presente com a realização de tarefas em casa. Deve ser.

Com a mesada, caríssimos, não é nada diferente. A única função da dita cuja é colaborar na educação financeira da criança. Para ser coerente com a nossa caricatura, a mesada existe para treinar o hábito financeiro adequado em crianças e adolescentes. Este assunto é deliciosamente polêmico e está longe de ser encerrado com esse artigo. Voltaremos a ele.

Texto por Cássia D’aquino

 

 

_______________________________________________________________________________

Educadora com especialização em educação infantil, Cássia D´Aquino é bacharela em História com pós-graduação em Ciências Políticas, ambos pela UFMG. Autora de artigos e livros sobre Educação Financeira, desde 1995 é criadora e coordenadora do Programa de Educação Financeira em inúmeras escolas do País. Atua como palestrante em Congressos de Educação e Encontros de pais no Brasil e exterior. É Corresponding Member da IACSEE- International Association for Citizenship, Social and Economics Education, organização com sede na Inglaterra.

É a representante do Brasil no Global Financial Education Program, iniciativa voltada para o desenvolvimento da educação financeira da população de baixa renda em todo o mundo. É assessora de diversas instituições públicas e privadas para criação e desenvolvimento de programas de largo alcance. Entre outras iniciativas, podem ser destacadas o BC Jovem (Banco Central); De Bem com as Contas (Companhia Siderúrgica Nacional -CSN); Tudo em Dia, Tudo Azul (Citibank); SonhosReais (Serasa Experian); e Contas no Azul (Força Aérea Brasileira- FAB).

Além disso, é mãe de Pedro, sua melhor idéia, projeto e resultado

www.educacaofinanceira.com.br